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Tarô

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Tarô

Descobrir a verdadeira origem do tarô é tarefa árdua. Os mais famosos autores ocultistas são de opinião que seu verdadeiro simbolismo provém do Egito Antigo. No “Tarô dos Boêmios” Papus, nos conta que toda sabedoria iniciática do Egito foi gravada nos símbolos das cartas do tarô como uma última tentativa de preservá-la para as gerações futuras.

Há quem sugira que o tarô é um espelho da sociedade do século XIV, suas cartas representando o mundo como se afigurava na época. Eliphas Levi (pseudônimo do padre Alphonse Luis Constant) acreditava ser o tarô o mais oculto e desconhecido de todos os sistemas, consistindo na chave para todos eles. Seja o que for que se tenha falado há um imenso fascínio nestas 78 cartas compostas de 22 arcanos maiores e 56 arcanos menores. Os 56 arcanos menores como as nossas cartas modernas, têm quatro naipes chamados: bastões, taças, espadas e moedas, que evoluíram nos nossos paus, copas, espadas e ouros e, que representam também os quatro elementos. Cada naipe tem quatro cartas da corte: o Rei, a Rainha, o Valete e o Cavaleiro. As 22 cartas restantes não pertencem a nenhum dos quatro naipes e são os arcanos maiores, figuras de rara beleza que nos contam uma estória e nos permitem uma viagem interior. Usaremos como objeto de nossa atenção os arcanos maiores. O baralho utilizado será o tarô de Marselha que parece ser o que menos modificações sofreu no decorrer dos tempos.

Selecione a carta que deseja ver:

  • O Mago

  • A Papisa

  • A Imperatriz

  • O Imperador

  • O Papa

  • Os Enamorados

  • O Carro

  • A Justiça

  • O Ermitao

  • A Roda da Fortuna

  • A Força

  • O Enforcado

  • A Morte

  • A Temperança

  • O Diabo

  • A Casa de Deus

  • A Estrela

  • A Lua

  • O Sol

  • O Julgamento

  • O Mundo

  • O Louco

O Mago O Mago - carta primeira, décimo segundo caminho - caminho de Beth
Esta carta seria representada pela letra hebraica Aleph, mas o caminho do mago é conhecido por caminho de Beth. Talvez porque no Zohar haja uma lenda em que Deus no momento de criar o universo convocou todas as letras no sentido inverso (de Tau para Aleph) e todas pediram para que fossem a primeira da criação. Todas foram rejeitadas, menos Beth. A respeito dela Deus disse: “sem dúvida contigo criarei o mundo e tu formarás o início da criação do mundo”. Depois Deus quis saber porque Aleph não tinha aparecido e chamou esta letra que explicou: “porque vi todas as outras letras se retirando de sua presença sem nenhum sucesso. O que então poderia eu conseguir permanecendo ali? Além do mais como já concedestes à letra Beth esta grande dádiva, não convém que o supremo Rei retire a dádiva que fez a um servo e ofereça a outro”. E Deus respondeu: “... embora eu vá iniciar a criação do mundo com Beth continuarás a ser a primeira letra. Minha unidade não será expressa a não ser através de ti; em ti se basearão todos os cálculos e operações do mundo, e a unidade somente será expressa pela letra Aleph”. O Mago é representado por um jovem junto à uma mesa retangular, de três pés, manipulando objetos apropriados a um mágico acrobata da Idade Média. A mesa representa o quaternário e o ternário (três pés), o que nos remete a simbologia do homem completo. Ele tem um bastão ou vareta na mão esquerda e uma moeda na mão direita. O bastão revela a batuta de quem rege ou de quem pode reger e por estar na mão esquerda mostra-nos que não é o raciocínio que deve ser acionado, mas o inconsciente; a moeda representa a terra e o corpo. O chapéu em forma de leminiscata (¥) remete ao movimento circulatório e respiratório. Um sistema rítmico que abdica do cerebral para ser guiado por outro tipo de inteligência. As cores vermelho e azul de sua túnica são dispostas de forma a sugerir oposição, mas ao mesmo tempo sugerem harmonia entre si. O dourado e o verde, também, fazem parte de sua vestimenta. As cores podem representar, também, os quatro elementos: fogo, água, ar e terra. O jovem segura os objetos com despreocupação e não olha para eles. Seu olhar dirige-se para outro lugar. Não se trata de um olhar de desatenção mas de estar focado em algo para atividade que está sendo exercida, de buscar inspiração para realização de algo extremamente criativo. Então é o Mago o início do caminho e todas as possibilidades que os caminhos propiciam. É o infinito. Estão ali na mesa os objetos que devem ser manipulados e apreendidos. Alcançaremos a sabedoria, certamente, no final deste caminho pela união dos opostos. Veremos reveladas as verdades internas, nem sempre aquelas que gostaríamos de que nos fossem reveladas. Dirigiremos adequadamente a energia através de nossos bastões pessoais, separaremos o que deve ser separado buscando-o em nosso inconsciente. Caminharemos pelo túnel através da luz permitindo que o Mago nos acompanhe e nos revele todos os mistérios.

Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
A Papisa A Papisa - carta segunda, décimo terceiro caminho - caminho de Gimel
Essa carta é representada pela letra Beth e o caminho é conhecido como o caminho de Gimel (o caminho do camelo). O título da carta do baralho de Marselha é A Papisa. Conta a lenda que no século IX, a paixão de uma moça por um monge, levou-a ao exagero de vestir-se de homem para com ele viver. Depois que o monge faleceu, ela foi para Roma e ali entregou-se ao sacerdócio, chegando a Cardeal e a Papa, com o título de João VIII. Posteriormente, ela foi desmascarada por ter dado à luz nos degraus da catedral de São Pedro. Imaginemos aquela mulher ali, a revelar seu mistério mais sagrado: o de ser mãe. O feminino revelado em seu maior segredo e em sua maior singularidade. O título desta carta deve-se a esta lenda. A Papisa é representada por uma mulher sentada, possivelmente num trono. Em contraste com a leveza do Mago que sugere ação, há na Papisa enraizamento, submissão, passividade. Ela segura com as duas mãos um livro, símbolo do conhecimento, unindo os lados esquerdo e direito. Suas vestes cerimoniais e a tiara da Igreja representam o poder espiritual. A pala amarela também une o lado esquerdo ao lado direito: consciente ao inconsciente, unindo-os de modo prático. Os cabelos não aparecem como símbolo de atração da mulher e dão lugar à uma tiara cravejada de jóias, símbolo de uma glória além do físico. Atrás dela ergue-se um véu representativo de algo que deve ficar escondido, de uma sabedoria a que nenhum mortal tem acesso, as memórias da espécie humana e do cosmos. A cruz solar em seu peito representa a unificação e o equilíbrio. Segundo White ela seria a responsável pela unificação de todas as crenças. O fato é que temos aqui o feminino se apresentando em toda sua profundidade através dos olhos da Papisa – olhos de velha sábia. Ela é a Inteligência unificadora harmonizadora dos opostos. Nem melhor nem pior por ser a carta de número dois. Apenas diversa do número um. Apenas una em si mesma. Todos deveríamos conter em nós atributos do Mago e da Papisa. Fogo e água, Yin e Yang, masculino e feminino, ativo e passivo são apenas opostos e não seríamos inteiros se não os trouxéssemos dentro de nós. Como mulheres deveríamos resgatar nosso contato com as deusas aceitando as vazantes e as enchentes, a vida e a morte, a natureza e seus ritmos. Como homens deveríamos deixar que as deusas nos inspirassem para um conhecimento maior de nós mesmos.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
A Imperatriz A Imperatriz - carta terceira, décimo quarto caminho – caminho de Daleth
A Imperatriz assim como a Papisa representa o poder feminino, mas trata-se aqui da Grande Mãe, a Vênus-Afrodite como nos deixa claro o símbolo de Vênus no cetro que ela segura na mão esquerda; centro este que liga, assim como o bastão do Mago, o céu à terra e que traz aqui intrínseca a idéia do amor, energia que forma o Universo. Aqui a mulher aparece em sua sedução, os cabelos são soltos as roupas são mais livres mais ornamentadas. Ela está em um cenário aberto, natural, seu trono parece ter asas o que sugere conexão com o espírito e ela segura quase com carinho o escudo com a figura da águia – força espiritual e também terrena, se lembrarmos de que João, o Apóstolo é comparado a águia e ao elemento terra. A Imperatriz é o terceiro elemento e, portanto, segundo Pitágoras, é o primeiro número a ter realidade física na medida em que representa a primeira figura geométrica – o triângulo. Aqui houve um nascimento, o nascimento da forma, do primeiro aliado a um segundo que se faz um terceiro e que possibilita multiplicidade. A Papisa é a guardiã do antigo, a Imperatriz é a reveladora de uma nova ordem. Este é o caminho de Daleth – que significa porta. Conhecer as energias desse caminho é no mínimo compreender nosso processo de crescimento de destruição e de renascimento. Cabe-nos contemplar a Grande Mãe face a face respeitando seu poder e permitindo que ela nos inspire.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
O Imperador O Imperador - carta quarta, décimo quinto caminho – caminho de Heh
O Imperador representa o mundo patriarcal, no sentido do logos (do racional). Ele vem para ordenar, para dar nome às coisas, utilizando-se não só do intelecto, mas também da sensibilidade e da emoção. Há uma lenda que diz que Satanás foi convidado juntamente com Adão para dar nomes aos bichos, em um concurso instituído por Deus. Obviamente seria necessário ao nomeador dos bichos ser no mínimo capaz de ordenar as coisas, característica esta que o rei do caos certamente não possuía. Assim, Adão ganhou o concurso. Esta figura é mais descontraída. Aqui parece estar ao alcance da espécie humana. Observemos que ele não está entronizado como a Papisa e a Imperatriz. Ele está recostado no que parece ser uma poltrona, pronto para a ação. Na cabeça ele traz um elmo que sugere combate e que tem cores muito fortes (vermelho e amarelo), cores também de ação. Na mão direita ele impunha um cetro com o símbolo de Vênus, a mão esquerda é atrofiada e segura o cinto. O império é conquistado pela razão. Ao mesmo tempo a águia do lado esquerdo lembra o mundo espiritual. Ele não a segura como a Imperatriz. A Imperatriz precisa do escudo, ele não mais precisa dele, ele está ali apenas à sua disposição. O par real está conectado, uma vez que as águias olham-se, voltadas uma para a outra (vide carta da Imperatriz). A postura do Imperador dá a entender que ele está aberto para as quatro dimensões (veja a perna cruzada desenhando o quatro). Até aqui tínhamos as três dimensões do tempo: passado, presente e futuro. O quatro introduz a dimensão do espaço. Observemos também que o Imperador é mais velho do que o Mago. Ele é o Mago que envelheceu. Ele é aquele que passou pelos três estágios e que atingiu o discernimento do número quatro. A Papisa é a guardiã do antigo, a Imperatriz é a reveladora de uma nova ordem, o Imperador é o classificador das coisas pelo exercício da razão. Este é o caminho de Heh que significa janela. Cabe-nos aqui reconhecer os potenciais existentes dentro de nós, discernir e encontrar o que realmente nos cabe e no que realmente somos bons. O um se transforma em dois, o dois se transforma em três, e do terceiro vem o um como quatro. (Maria Prophetisa)
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
O Papa O Papa - carta quinta, décimo sexto caminho – Caminho de Vau
Em relação às outras cartas, esta apresenta uma diferença fundamental. Aqui aparecem duas figuras de tamanho humano. São dois homens ajoelhados ao pé do Papa. O número cinco é o número desta carta e representa a transcendência, o estabelecimento da ponte entre o homem e Deus. O Papa é a figura do pai a quem os filhos confessam e pedem conselho. Observemos que mão direita está erguida em sinal de benção e o que é a benção senão o poder divino em ação? A oração que foi ouvida e que chegou até Deus, agora devolvida em fórmula de benção que revitaliza? Por suas vez as figuras ajoelhadas também escutam e não é por acaso que o caminho é o de Vau: o caminho da audição. Na mão esquerda ele segura a cruz tríplice que fica mais alta que sua cabeça. A mão está enluvada e na luva está assinalada a cruz patèe – antiga cruz da Igreja, a revelar que a mão não é humana e sim um poder maior ligado à espiritualidade. A coroa tríplice representa o poder do Papa sobre os mundos físicos, emocional e mental, assim como a cruz que encima o cajado. O Papa fita os indivíduos à sua frente; pela primeira vez nas cartas do tarô o homem fita a divindade. Este é o caminho de Vau que significa gancho ou prego. Esta é uma evolução. Aqui é feita uma ligação. Digamos que Deus se torna homem e o homem se torna Deus no que isso possa ter de salutar ou de destrutivo. Salutar se olharmos com coragem para dentro de nós mesmos e trouxermos para a nossa consciência o que de bom ou mal ali houver. Destrutivos se enxergarmos no que de bom não tivermos apenas nossos velhos pecados projetados nos outros.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
Os Enamorados Os Enamorados - carta sexta, décimo sétimo caminho – caminho de Zain
Nesta carta temos pela primeira vez um ser humano enfrentando um conflito individual. Trata-se de um rapaz entre duas mulheres. Ambas o requisitam. A mulher de cabelos pretos e vestidos vermelhos à esquerda (a de aparência mais possessiva) tem a mão colocada em seu ombro e mostra autoridade ao fazê-lo. A mulher à direita, de cabelos louros e manto azul, de aparência mais jovem toca-lhe o coração. Quem escolherá ele? A da esquerda que pode ser sua mãe, ou, a da direita mais jovem e de melhor aparência que poderá ser sua amante? Seja que escolha for que a vida tenha lhe oferecido ele tem aqui duas possibilidades. Poderá ele escolher já que acima dele está Eros (o deus do amor) a dirigir sua seta para a moça mais nova? Não determinará o deus, o menino arqueiro que se destaca em uma bola que emite raios amarelos e azuis e que está prestes a lançar sua flecha, a escolha do rapaz. Trata-se de discernir, de escolher com consciência. Pode ser que a flecha de Cupido esteja induzindo ao erro, mas, não há como ficar paralisado. O caminho é o de Zain que significa espada que tem a função de discernir e de separar. O número seis está associado à carta e é um símbolo sexual. É o número do selo de Salomão, número de teste entre o bem e o mal. Aqui há um conflito a ser enfrentado sem o qual não haverá crescimento espiritual.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
O Carro O Carro - carta sétima, décimo oitavo caminho – caminho de Cheth
Esta carta é peculiar. Aqui a importância é dada ao veículo que transporta o homem. O título é O Carro, a carruagem de Hermes, segundo alguns tarólogos. Esta carruagem de forma cúbica representa o corpo físico. Ela é puxada por dois cavalos, representantes do instinto animal, que se dirigem para lados diferentes, mas olham para o mesmo lado. Este carro possui rodas estranhas – rodas em viés. Na carruagem está um homem. Ele tem na cabeça uma coroa e segura na mão direita um cetro; suas roupas são revestidas de pedras preciosas. É uma figura de autoridade, possivelmente trata-se de um rei. Ali está ele em pé cercado por quatro colunas que representam a forma física, numa postura de quem dirige a situação, mas estranhamente ele não segura rédeas. Em cada lado do seu ombro há uma máscara representando a forma da lua: uma lua negra e uma lua branca. Cabe-nos perguntar: Como pode esse homem dirigir esse carro se aparentemente o veículo não tem nenhuma estabilidade e não há instrumento nenhum para que o condutor o controle? Ou poderemos entender que o condutor dirige este carro através da vontade e pode dominar todos os impulsos díspares? De qualquer forma se ele se descuidar um pouco que seja, este carro poderá desgovernar-se e, se ele se deixar invadir pelo ego a catástrofe poderá ser grande. Há que ficar atento e dominar os instintos, e vigiá-los. É preciso harmonizar divino e terrestre, aliás, o número sete que é o desta carta tem essa propriedade. O carro está aí para transportar todos nós e, faremos nossas viagens pessoais, empreenderemos nossas jornadas, mas só chegaremos em casa sãos e salvos se domarmos nossos cavalos e unirmos nossas luas.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
A Justiça A Justiça - carta oitava, décimo nono caminho – caminho de Teth
O tarô de Marselha coloca na oitava carta a Justiça, outros tarôs colocam a Força. Como utilizo o de Marselha optei por sua versão. Eis aqui uma mulher assentada em uma poltrona de duas colunas. Ela veste túnica vermelha com um manto azul em cores proporcionadas. O amarelo também se apresenta no ouro da espada, da balança e da tiara em sua cabeça. As colunas se nos lembrarmos da cabala judaica representam a da Graça e Misericórdia e a do Rigor. Dois princípios opostos e aqui perfeitamente equilibrados. Há também outro par de opostos representado pela balança e pela espada: feminino e masculino em equilíbrio. A balança pode representar o próprio equilíbrio e a espada a capacidade de discernir, de discriminar. Lembremo-nos de Salomão e de seu célebre julgamento em que convoca duas mulheres pleiteando a mesma criança, a cortá-la ao meio usando como instrumento uma espada. A mulher que se propõe a abrir mão do inocente desde que não fosse ferido é reconhecida como a verdadeira mãe. O julgamento foi feito. Os dois pratos foram avaliados, mas o julgamento não foi feito de acordo com o ego, não foi feito de acordo com a vontade de um indivíduo, mas, segundo um propósito superior. A justiça, aqui simbolizada pelo número oito, cuja forma se assemelha aos dois pratos da balança, nada mais é do que a nossa consciência avaliadora inspirada no sentido mais elevado.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
O Ermitao O Ermitao - carta nona, vigésimo caminho – o caminho de Yod
Temos aqui um homem idoso, um andante que caminha sozinho tendo por apoio a bengala e por iluminação uma pequena lanterna. Seu caminho é individual, a lâmpada é pequena para iluminar os demais, parece servir apenas para sua própria individuação. Seus olhos são doces e ele não precisa dizer-nos nada. Ele não vem para pregar. Apenas nos mostra que cada jornada é individual e que cada caminho tem que ser trilhado sem acompanhantes. A lanterna tem uma veneziana vermelha que parece reportar a toques de humanidade. O manto é azul com forro amarelo – talvez o caminho do espírito em busca do ouro alquímico. Lá está ele de pé, no deserto, segurando a sua própria luz. Ele é o eremita, palavra que deriva de ermo, que quer dizer deserto. A mão aberta representa a capacidade de doar e de receber sem julgamentos morais. O símbolo de yod, a língua de fogo, é o hieróglifo que compõe cada letra do alfabeto hebraico e representa a força vital. O cajado dá-lhe apoio e pode ser a exemplo de Moisés, auxiliar na busca da água necessária tanto para o seu físico quanto para o espírito. O número nove representa o máximo que um número simples pode alcançar. É também o número da gestação humana. São necessários nove meses para que um ser humano nasça. É preciso então percorrer um caminho de um a oito e chegar ao nove e adquirir a capacidade de ir e de regressar. Observemos que o número nove sempre volta a si mesmo. Nove mais nove é igual a dezoito e um mais oito é igual a nove. Assim o Eremita é aquele que transita entre o ir e o retornar e ele nos ajuda a descobrir nosso caminho pessoal.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
A Roda da Fortuna A Roda da Fortuna - décima carta, vigésimo primeiro caminho - o caminho de Caph
A roda é um símbolo muito antigo da própria vida. E aqui está ela com suas três figuras. A figura à direita é Anúbis, o deus egípcio com cara de cachorro que pesava as almas dos mortos. A da esquerda é Tífon o Deus da destruição e da desintegração. Aparentemente Anúbis sobe e Tífon desce na Roda, mas ela gira sem parar e, hoje será um a estar no topo e, amanhã a coisa se inverterá. Ambos representam forças instintivas, mas o fato de usarem roupas humanas pode significar que já evoluíram para a consciência. A terceira figura é uma esfinge assentada numa plataforma em cima da roda. A esfinge não roda: os animais rodam e passam diante dela.Parece que está o ser humano sendo alertado de que é terreno e passível de sofrer seu próprio destino. Diante desta criatura escura, usando coroa de ouro, com cara de macaco e corpo de leão e com asas vermelhas de morcego os pobres mortais param muitas vezes para fazer perguntas. E são na maioria das vezes questionados como o foi Édipo. Há que fazer um acordo com essa criatura e nem sempre é através do intelecto que o fazemos. Édipo resolveu com galhardia o enigma da esfinge e nem por isso escapou de seu destino: casar-se com a mãe e matar o próprio pai. À primeira vista parece que as coisas não fazem sentido, que não podemos escapar envolvidos pelo inexorável movimento circular da vida. Mas somos nós os responsáveis pelo nosso próprio destino na medida em que em algum momento devemos encarar nosso lado menos luminoso, encarando a figura da esfinge e respondendo à sua charada que não é outra que o “Conhece-te a ti mesmo?”
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
A Força A Força - décima primeira carta, vigésimo segundo caminho - o caminho de Lamed
Vejamos esta mulher. Ela é uma figura mortal. Nenhuma figura aparece aqui entronizada. Nenhuma deusa. É alguém vestido de forma comum. Como na primeira carta do tarô – o Mago – ela também porta um chapéu em forma de lemniscata, o signo do ritmo, do que se renova a cada instante, mas ao contrário dele ela não precisa manipular objetos sobre a mesa. O seu é um contato direto com nada mais nada menos do que um leão. Assim, esta figura angelical de olhos doces, de cabelos loiros está com as mãos colocadas na boca desse leão, abrindo-a. Esta virgem doma essa fera sem sequer olhar para ela. E esta Besta, esta fera indomável, apóia-se nela. Aqui temos um instinto animal subjugado de forma harmônica. O domínio do espírito sobre a matéria. Esta figura de mulher vestida de azul – lado espiritual predominante – usando um manto vermelho que representa o poder e a ação, nos diz que não devemos virar as costas ao nosso instinto animal e sim utilizarmos sua força e energia para uma transmutação. Aqui nesta carta de número 10 + 1, estamos recomeçando nós e nosso leão pessoal a quem devemos domar suavemente, delicadamente, como uma dama o faria para que sejamos nós e o leão unos em nós mesmos como o são as virgens. Olhemos só como parecem fluir as energias leão e mulher. É interessante notar que não é o poder masculino que doma o leão. É a influência feminina, é a mediação feminina entre consciência e psique. A forma como uma mulher se relaciona com a fera é muito diferente da forma masculina, ela não precisa fazer esforço nenhum para domá-lo, ao contrário, os dois se movem juntos em harmonia. Porém não nos enganemos: o leão não pode ser domesticado! Ele pode ser controlado através das duas forças: masculina e feminina. Em linguagem mais psicológica, seria o masculino dando ouvidos a sua anima para que jamais se perca o leão de vista.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
O Enforcado O Enforcado - décima segunda carta, o caminho de Mem
Bem, ao observarmos esta carta notamos algo de insólito. O que será que faz esse homem nesta posição estranha? Não estará a carta ao contrário? Houve muita gente que pensou assim, chegando-se a achar no século XVIII que a figura dependurada fosse um erro. É, a carta está corretamente posicionada. Trata-se de um homem suspenso pelo pé esquerdo a uma viga que parece uma barra de ginástica, ladeado por duas árvores que apresentam seis cotos sangrentos cada. O pé está preso por uma corda em formato de serpente o que pode significar que o criador e o destruidor de todas as coisas está ali para provocar mudanças. A cabeça deste homem está abaixo do nível do solo como podemos observar pela sua posição em relação às raízes das árvores. Os cabelos têm o formato de algo concernente à vegetação e que está sendo plantado. Ele está fechado pela viga acima e pelas duas árvores ao lado, como se estivesse em um caixão. Traz as mãos atrás das costas, assim não pode mover-se e está totalmente a mercê da mãe terra. A perna direita dobrada na altura do joelho por trás da perna esquerda, sugere a figura de uma cruz. Os braços dobrados atrás das costas fazem com que a parte inferior da figura lembre um triângulo. A cruz acima do triângulo diz respeito à realização da Grande Obra na alquimia. As árvores possuem doze cotos no total, número representativo dos signos do zodíaco, das doze horas do dia e da noite, dos doze meses. Os cotos sangram e sugerem sacrifício, não o sacrifício da forma como costumamos entendê-lo, mas na acepção da palavra “sacre faccere” que quer dizer tornar sagrado. Aqui se trata de sacrificar nosso ego e ficarmos ali suspensos, crucificados. O tema da crucificação aparece em várias culturas. Osíris, o deus egípcio ficou pendurado numa árvore por três dias até ficar em condições de ser desmembrado. Na mitologia nórdica, Odin ou Wotan é pendurado em sacrifício nos ramos de uma árvore. Quando precisamos mudar de estágio, primeiro devemos passar por um ritual de iniciação e como os deuses precisamos permanecer suspensos, inativos, porém em contato com nossa própria natureza, plantados no solo, à espera de um renascimento. Devemos ficar suspensos inúmeras vezes e devemos aceitar o nosso destino, entregando-nos a um princípio superior. Afinal, ali de mãos atadas, plantados na terra e dependurados, só nos resta esperar. Move-nos a certeza de que estaremos construindo bases cada vez mais sólidas ao contrário do que sugere a posição dessa carta - O Enforcado.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
A Morte A Morte - décima terceira carta, vigésimo quarto caminho
Eis aqui um esqueleto, portando um alfanje que ceifa partes humanas, alfanje este rubro de sangue. A princípio a figura é assustadora porque é a personificação da morte. Ela com seu sorriso parece-nos dizer que penetrou no conhecimento do outro lado, aquele do qual muitas vezes nem queremos ouvir falar. E como temos medo do desconhecido, evitamos olhar para o inevitável a que chamamos de morte. Mas, vamos observar esta carta mais de perto. Vejamos, o esqueleto é a figura da morte que chega para todos e é também algo que não perece: os ossos sobrevivem a nossa carne perecível. Algo é extinto no plano material, mas sobrevive num outro plano. Veja, cabeças, pés e mãos são cortados e mesmo assim continuam a ter vida; há brotos de plantas emergindo do solo negro. O sangue do alfanje pode representar destruição mas representa também vitalidade. Algo de novo há de nascer. Nada do que foi ceifado perdeu a condição de vida. Nós temos da morte a impressão de que ela nos tira os entes queridos, de que ela nos tira as coisas às quais estamos apegados, inclusive nosso próprio corpo físico. E não é só fisicamente que somos atingidos. Existem as mudanças interiores que nos atingem no dia-a-dia. Estamos mudando a cada momento e toda a mudança não é uma pequena morte? Esta figura representa a transformação que pode nos atingir no plano físico de forma a que passemos pela transição a que chamamos morte. Ela pode atingir-nos com uma força avassaladora para que mudemos nossos velhos conceitos, nossas velhas idéias. Podemos passar pelo desmembramento simbólico em que nossas cabeças sejam decapitadas, coroadas ou não, para que outra ordem se instale. Não podemos é fugir ao tema da morte. Embora a evitemos a qualquer custo – por vezes temos medo até de nomeá-la, como se nomeá-la fosse torná-la real – não há como fugir dela nem de sua transformação final. No entanto, a morte também é renascimento. O treze que tem sido tratado como número aziago, representa também o fim de idéias cristalizadas, um novo calendário que os maias também conhecem, a libertação a novos horizontes. O caminho dessa carta é o caminho Nun. Nun é um verbo que significa germinar, crescer e que coloca o esqueleto como uma semente simbólica. Por detrás do esqueleto físico que tanto nos aterroriza há o esqueleto espiritual. Nun também significa peixe que é um símbolo tradicional daquilo que os alquimistas chamam de matéria original, algo que eu não posso descrever mas que subsiste a todas as coisas. Assim, olhemos para essa carta não como inimiga a ser evitada mas como aliada a ser encarada. Como dizia Don Juan, guru espiritual do Carlos Castañeda: “A morte é o único conselheiro sábio que temos. Cada vez que você sentir, como sempre faz, que nada dá certo e que você está prestes a ser aniquilado, pergunte a sua morte se é assim mesmo. Sua morte lhe dirá que você está errado, que nada realmente importa a não ser o seu toque. Sua morte lhe dirá: ainda não o toquei.”
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
A Temperança A Temperança - décima quarta carta, vigésimo quinto caminho - o caminho de Samekh
Um anjo de longos cabelos azuis e de asas douradas se nos apresenta. Embora sendo uma figura alada, ele desceu à terra e está ao ar livre; ao seu redor a vegetação nasce, portanto, este é um ser ligado ao céu e a terra, ou melhor dizendo ele é quem faz a conexão céu-terra. Há em sua testa uma flor vermelha de cinco pétalas, no lugar do terceiro olho a representar o despertar da consciência. Realiza-se aqui um ritual estranho. O anjo segura na mão esquerda um vaso azul e na mão direita um vaso vermelho. Ele verte do vaso azul para o vermelho um líquido que não cai, que não se desperdiça. Neste procedimento observa-se um movimento de dança percebido pela leveza das vestes e pelo inclinar do anjo para o lado direito. Os vasos são diferentes nas cores e nos tamanhos. O mais estreito, azul, representa o princípio masculino e o mais largo, vermelho, representa o princípio feminino. Aliás a união dos opostos está representada em vários aspectos nesta carta: pelo vermelho e pelo azul nos vasos, pela veste longa azul e vermelha, pelos cabelos azuis e pela flor vermelha, pela figura celeste que se encontra na terra! Pois bem, este anjo é quem tempera as energias. E ele está ali desde sempre, como nosso anjo da guarda, procedendo ao processo alquímico de misturar elementos opostos para purificá-los. Este anjo tempera as energias usando os braços - que servem também para abraçar e para acalentar. Há que se observar também que as mangas que recobrem os braços são de cor vermelha indicando possibilidade de ação e de fornecimento de calor. Samekh pode aliás significar esteio, ligação com o grande útero materno, com a Grande Mãe. Embora os anjos sejam andróginos, este tem a característica maternal própria do feminino. Ele aconselha que tenhamos paciência porque aqui não vamos usar a lógica ou a razão. Será preciso que tenhamos confiança no fluir da vida. Afinal, este anjo desceu a terra e está aqui frente a frente conosco, para que experimentemos o inconsciente de uma outra forma, para que saibamos que o dentro e o fora têm a mesma importância. É o deixar-se fluir com o líquido que salta de um recipiente para o outro. O mais alto sendo transferido para o mais baixo. O azul sendo transferido para o vermelho em uma dança eterna de altos e baixos que outra não é senão a dança da vida. Observação: Em alguns Tarôs, as cores das figuras diferem.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
O Diabo O Diabo - décima quinta carta, vigésimo sexto caminho – o caminho de Ayin
Esta carta revela pura confusão. Senão, vejamos: trata-se de uma figura central andrógina – ela tem seios e pênis -, portadora de asas de morcego, pés animalescos, mãos em forma de garras. Na cabeça usa um elmo dourado, como o do deus Wotan – que é um deus sem limites, voltado para o prazer e para o poder. Neste elmo há cornos, chifres de veado cujo símbolo é o fogo divino. Reparemos que os cornos não pertencem ao Diabo mas fazem parte do elmo de Wotan. Na mão esquerda ela segura uma espada de forma descuidada e nada é mais perigoso do que este poder mal utilizado! A mão direita desse personagem ergue-se num gesto em que preponderam quatro dedos erguidos a representar os quatro elementos da natureza. O Diabo olha na direção do nariz, os olhos são vesgos, olhos de confusão e de dubiedade. Ele está de pé sobre o que parece ser uma bigorna. A seus pés, presos pelo pescoço por um cordão que passa através de um anel, estão dois diabretes inteiramente nus, providos de longa cauda. Na cabeça portam também o elmo de Wotan e cornos de veado. O solo a seus pés é negro como o solo em que a Morte ceifa cabeças. O SENHOR DAS TENTAÇÕES opera às costas desses dois escravos e eles nem sequer se dão conta de que estão sendo manipulados. Essa figura chega a ser infantil. Será por isso menos nociva? Não. A irresponsabilidade que lhe é inerente é por si só danosa. Imagine a espada a ser manejada por mãos inaptas. Imagine o voltarmos as costas aos elementos instintivos que nos escravizam. Imagine a mão que não sabe o que faz a outra. Mas não nos enganemos. Esta figura representa também a necessidade material, o impulso para a ação. Temos um corpo e ele é o veículo para que caminhemos neste mundo, nesta realidade sólida e real. Não se trata de voltar as costas ao Mal fingindo que ele não existe. O Diabo arma tentações mas não nos esqueçamos de que ele é o responsável pela nossa liberdade de escolha. Sem sua interferência no Jardim do Éden, não teríamos tido oportunidade de nos defrontarmos com nossa sombra pessoal e de expandir nossa consciência. Trata-se aqui de lançar luz sobre as trevas. Esta carta a propósito é a do caminho de Ayin que significa olho, o olho que incita que aceitemos a realidade mas que tenhamos uma percepção das coisas através de uma visão interior. O Demônio não pode desaparecer magicamente porque assim o queremos ou porque desejamos que ele jamais tenha existido. Ele está dentro de nós e sobre ele deve ser lançada a luz da consciência.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
A Casa de Deus A Casa de Deus - décima sexta carta, vigésimo sétimo caminho – o caminho de Peth
A Torre tem representado no decorrer dos tempos a ligação entre o céu e a terra, um veículo que liga o espírito à matéria. Esta ligação seria estabelecida através da escada por onde desceriam os deuses e por onde subiriam os homens. Como diria o estudioso de mitos, Eudoro de Sousa – “Os homens sobem pelo mesmo caminho em que os deuses descem, de cima para baixo, despem-se os deuses, de baixo para cima despem-se os homens. A meio do caminho, encontram-se deuses e homens parcialmente despidos. A meio caminho, homens se reconhecem nos deuses e vice-versa, ambos saúdam-se como iguais. Os deuses descendo se iniciam no humano, e os homens subindo se iniciam no divino”. Aqui a Torre possui uma outra simbologia. Trata-se de uma construção cor de carne cujo topo está desmoronando porque foi atingido por um relâmpago. Ali viviam duas pessoas que foram arremessadas ao chão quando a torre foi atingida. Este relâmpago tem uma qualidade plumosa o que lhe confere um aspecto menos aterrador. Vejamos: ele destrói a coroa que encima a torre, arremessa os seres humanos ao chão, mas isto vem acompanhado de bolas multicolores e parece que as pessoas não sofrem danos físicos. Parece haver chegado o momento de serem expulsos do isolamento e o Princípio Divino lhes dá uma mãozinha! Não se pode viver isolado de tudo e de todos, não se pode viver no ar. Corremos o risco de sermos encerrados na própria prisão que construímos para nós e de inflarmos a ponto de ocasionar a nossa própria queda. Esses personagens construíram para si um refúgio onde eram reis, mas não contavam com a interferência divina. Nenhum homem pode querer assemelhar-se a Deus sem sofrer conseqüências. Como foi dito anteriormente a Torre serviria para estabelecer ligação entre o céu e a terra. Homens ali encerrados a acalentar sonhos de grandeza não têm lugar. Nenhum sistema social-político-religioso-psicológico pode ser mantido se através dele quisermos dominar nossos semelhantes, se pensarmos que somos os únicos detentores de suas teorias e únicos mecanismos válidos de ação. O certo é que nossos falsos conceitos contribuem para que nossas torres caiam. As palavras também contribuem para que nossas instituições caiam, motivo pelo qual o caminho de Peth significa boca, lugar por onde o alimento entra e por onde a fala sai. As palavras corretas permitem que os conceitos falsos sejam destruídos. No entanto, não se trata aqui de um prognóstico negativo. Reparemos que a torre não cai. Este monumento cor de carne que representa o corpo humano, não é destruído. Destrói-se o topo, a coroa, para que haja uma mudança real, uma renovação de idéias, uma confrontação do homem para que ele não mais seja vítima de sua hibris. O princípio superior que a golpeia não reconhece egos inflados nem posições sociais. Ele golpeia para que o ínfimo mortal caia e possa recomeçar com a interferência divina, através da parte superior da torre, através da ligação com os céus.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
A Estrela A Estrela - décima sétima carta, vigésimo oitavo caminho – o caminho de Tzaddi
Esta mulher nua, ajoelhada em posição que sugere humildade, à beira de um rio, possui a simplicidade da natureza. Ela despeja o conteúdo de duas vasilhas, sendo que um é vertido na terra e o outro na água do rio. Um é força motriz para que floresçam sementes; outro se vai com o rio, fortificando-o ao mesmo tempo. As vasilhas em suas mãos têm uma ligação com os vasos da Temperança, mas trata-se aqui de uma figura humana e os símbolos são da natureza física e do sentimento. As estrelas que encimam a cena são sete oscilando ao redor de uma estrela de oito pontas. Parece ela representar um ponto fixo no universo de nossa personalidade. A estrela que nos guia, um porto seguro para o qual convergem nossas outras estrelas, as estrelas de nossa personalidade. Ao fundo vêem-se duas plantas, numa das quais está empoleirado um pássaro preto, símbolo da alma imortal. Importante lembrar que este pássaro é uma figura viva e não uma figura adornando um escudo real como em outras cartas do tarô. Aqui tudo é vivo, as árvores têm brotos, tudo é de uma pureza revelando ao mesmo tempo um caminho maior para a consciência. As estrelas estão pintadas contra o céu claro; este parece revelar que elas serão vistas e sentidas simbolicamente e não como eventos que ocorrem na natureza exterior. À mulher nua não é necessária a observação direta das estrelas. Os princípios estelares estão dentro dela e ela os sente através da meditação e através da ligação como os elementos da natureza. Ela separa e redistribui. Ela cria, molhando a terra e criando do barro novas formas, despejando mais água no rio do inconsciente. Ela estabelece uma ligação entre o real e o sonhado. A mulher-estrela deixa que a natureza fale. Ela pesca peixes do inconsciente. Observemos que a carta é representada pela letra Tzaddi que significa anzol. Nossa tarefa não é outra que a de trazer peixes à tona, observando o rio e a natureza, corajosamente pescando em lugar sombrio dentro de nós mesmos.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
A Lua A Lua - décima oitava carta, vigésimo nono caminho - o caminho de Qoph
Vê-se aqui a Lua com face humana e benévola, representada por perfil em forma de crescente. Dela partem vários raios nas cores branco, azul e vermelho. Gotas coloridas estão sendo retiradas do mundo material. São vermelhas, azuis e amarelas, cores representativas do espírito, da carne e da alma. Abaixo, no mundo material, há uma paisagem estranha e desolada. O solo é acidentado e não apresenta vegetação a não ser por duas pequenas plantas de cor dourada que parecem artificiais. À direita e à esquerda estão duas torres, uma de teto coberto e outra descoberta, também de cor amarela. No centro da paisagem, há dois cães uivando. Os cães lembram Cérbero e outros guardiões do inferno. Em outro plano temos um fosso azul, raiado de negro e em seu centro jaz um lagostim de garras estendidas. Muitos obstáculos esperam o herói que se aventurar nesta travessia. A Lua pode ser encantadora, mas não nos esqueçamos de seu lado feiticeiro que pode embrenhar-nos em seus mistérios. Os cães representam o lado instintivo para o qual não se pode virar as costas. É necessário negociar com eles usando sua energia e sua capacidade de farejar. Precisamos passar por eles e só o conseguiremos se soubermos lidar com este lado instintivo. Acontece que estamos aqui submersos no mais profundo de nós. Vale lembrar que a lagosta e o lagostim são espécimes que sobreviveram à pré-história. Antiguíssimos estão aprisionados em fossos profundos e não há aparentemente como retirá-los de lá. No entanto este crustáceo é também algo indestrutível como é sua estrutura, seu esqueleto e como demonstra a sua longevidade. Ele representa a imortalidade e vem para impulsionar o ser homem na sua jornada de evolução. Não nos esqueçamos, entretanto que este é um momento em que não há lugar para considerações intelectuais, morais ou éticas. Este é o domínio da Lua. Teremos que ficar por um tempo neste mundo desolado, sem luz, com seus múltiplos perigos, ouvindo a natureza, ouvindo as formas básicas da vida, para então atravessar o fosso escuro, o deserto escaldante e alcançarmos o domínio da intuição.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
O Sol A Lua - décima nona carta, trigésimo caminho - o caminho de Resh
Sol, centro brilhante. Ei-lo a iluminar o arcano de número dezenove. Aparece de frente com seu rosto benfazejo e humano. Dele saem vários raios coloridos, em algumas cartas são setenta e cinco raios o que potencializa sua ação de calor e de iluminação. Não é aleatoriamente que o caminho aqui estudado é o de Resh que significa cabeça. Trata-se da mescla da inteligência com a sabedoria espontânea, algo que permite a inteligência dotada de confiança infantil unir-se à sabedoria do coração. Vejamos as crianças nuas, inocentes que se tocam sem medo, uma com a mão direita no pescoço da outra, a outra com a mão direita sobre o coração da primeira. Elas recebem as gotas que emanam do Sol, gotas coloridas que conferem nutrição e iluminação. As crianças estão cercadas por um muro, um “temenos” onde podem receber as emanações do Sol que conferem nutrição e iluminação. Parecem elas ser gêmeas e pode-se dizer que são uma menina e um menino já que os órgãos genitais estão cobertos por uma faixa azul, não por vergonha, mas por discernimento, pela consciência do diverso. Tal é uma das qualidades do Sol que traz a capacidade de distinção. O limite representado pelo muro pode estar se referindo também à necessidade de não nos deixarmos levar pelo infantilismo. O que esta lâmina quer nos mostrar é o quanto é importante a nossa ligação com o nosso Eu natural, com a nossa criança interior, com os opostos dentro de nós mesmos. Estamos a caminho de algo indestrutível como as pepitas aos pés das crianças, que são de ouro – obra maior. Porém para viver uma experiência tão profunda é preciso que tenhamos construído um lugar protegido, que tenhamos feito uma longa jornada munidos da simplicidade da criança. De forma alguma entraremos nos céus se não nos tornarmos como crianças.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
O Julgamento O Julgamento - vigésima carta, trigésimo primeiro caminho - o caminho de Shin
Um grande anjo, aureolado de branco, aparece nos céus ladeado por espessas nuvens azuis que lhe conferem atributos da alma; raios vermelhos e amarelos do espírito e da ação saem dessas nuvens. Ele possui asas e mãos da cor de carne, possivelmente para que lhe sejam auferidos atributos do humano. Suas mangas vermelhas e seus cabelos indicam algo que está sempre em ação. Ele porta uma trombeta de ouro e nela há uma bandeira brasonada com uma cruz de ouro. São caminhos que se entrecruzam, impulsos que se encontram, reencontros de duas direções. O som emitido pelo anjo parece ter violentado a terra uma vez que o solo abaixo está levantado em formato de vários montes. O som ressuscitou, também, um jovem que sai de um túmulo aberto, verde em formato quadrado. Este jovem, nu ouve o chamado e encara o anjo que está disponível a comunicar-se com ele. Ele está despido como o homem deve ficar diante de Deus. Passou pelo próprio julgamento interno e pode agora ouvir o chamado que faz ressoar o amor, a esperança e a fé divinos. Diante dele estão igualmente duas figuras humanas. Uma mulher e um homem cujas mãos se postam em forma de oração. Eles saúdam o recém chegado com referência. Seus cabelos azuis revelam que estão ligados a coisas do espírito embora estejam revestidos de carne. Devemos atentar para o fato de que as figuras aqui são humanizadas. Temos três homens e um anjo com características humanas. Isto parece indicar que há possibilidade de uma união e de um trabalho em conjunto em busca de um novo ser humano. O Julgamento pode remeter ao juízo final, ao apocalipse, à trombeta de Miguel, ao momento em que os justos serão chamados à vida celestial e os maus serão julgados. No entanto preferimos levar em conta que o termo para julgamento em grego é crise – krisis. Devemos, passar por vários julgamentos internos em nossa existência. Julgamentos de que seremos agentes, mastigando com bons dentes “caminho de Shin” o alimento para transformá-lo em energia salutar e divina.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
O Mundo O Mundo - vigésima primeira carta, trigésimo segundo caminho - o caminho de Tau
Aparentemente a jornada acabou. Uma dançarina nua, emoldurada por uma grinalda de cores vermelha, amarela e azul está no centro da lâmina. Nos cantos temos um leão, um boi, uma águia e uma figura angélica em estado de permanente vigília. Eles representam os quatro elementos e os apóstolos Marcos, Lucas, João e Mateus. Ela segura dois bastões, um em cada mão, que representam os pólos positivo e negativo, movimentando-se de forma harmônica. Embora tenha seios e cabelos de mulher, tem pernas fortes e expressão no rosto que nos fazem pensar em uma figura masculina. É que aqui os opostos se integraram formando uma figura andrógina. A dançarina movimenta-se dentro de um lugar sagrado ladeada pela grinalda. Ela tem suas partes sexuais ocultas por uma espécie de echarpe, mais uma vez não porque se envergonha deles, mas por uma espécie de recato instintivo. Seus pés no chão sugerem dança e formam o número quatro ligado à realidade terrena e à mediação entre o exterior e o interior. Tudo remete à dança, à concepção de um mundo em que tudo flui. Depois de uma travessia por vinte e um lugares, chega-se finalmente a um lugar onde nos encontramos em paz, aceitando a vida, vivendo-a, dançando-a. Logo reiniciaremos nova jornada a começar novamente pelo número um, pois como nos mostra a grinalda não estamos em um círculo, mas em uma espiral de muitas camadas que exige de nós reiniciarmos o caminho sob outras condições para nos aprimorarmos sempre e mais. A dançarina é o movimento constante. Algo está sempre para ser alcançado!
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
O Louco O Louco - carta zero, décimo primeiro caminho - o caminho de Aleph
Esta carta não tem número fixo. Seu personagem está livre para viajar à vontade, para substituir outras cartas como acontece com os coringas nos baralhos tradicionais. Trata-se de um homem vestido com roupas de bobo da corte. Ele ostenta gola azul com pontas terminando em guizos, calça azul e sapatos vermelhos, casaco vermelho com mangas azuis de onde saem mangas amarelas, cinto amarelo com vários guizos. Misturam-se as cores, indicando muitos pares de opostos. É que o louco abarca muitas possibilidades, não expressa nada, mas contém tudo. Ele caminha para a frente pisando terreno fértil como podemos observar pelas plantas verdes na estrada. O terreno é acidentado, mas o calçado vermelho demonstra que há como lidar com isto. Seu rosto está voltado para trás o que pode significar que o passado é-lhe importante, principalmente no que diz respeito à infância com suas travessuras e sua ingenuidade. O louco está apoiado em um bastão dourado, a terra por onde caminha é dourada, há mangas amarelas em sua roupa, dourada é sua barba e o estranho capacete que envolve a sua cabeça encimado por uma penacho e uma bola vermelha. Assim ele não está distante das verdades solares e da iluminação embora aparente seguir indiferentemente pela vida, embora seus olhos azuis pareçam estar fixados em algo que não podemos acessar. Segue o nosso Bobo despreocupadamente e ouve a voz do instinto representada pelo cãozinho marrom que lhe puxa o pano das calças, rasgado, descobrindo-lhe as nádegas e as coxas. Ele traz nos ombros uma sacola em formato de ovo, da mesma cor de suas nádegas e coxas, apoiada em um bastão branco. Vagueia pelo mundo, mas já foi aceito pela sociedade. Ocupava ali um lugar próprio. Basta lembrar dos bobos da corte. Basta lembrar o quanto as pessoas com problemas mentais eram bem consideradas e queridas na antiga Rússia, como se tivessem sobre si a mão de Deus. Este homem vai pelo mundo e tem seu olhar dirigido para a direita. A quem diga que ele é o Louco do Bem, como Dom Quixote de La Mancha, o Cavaleiro da Triste Figura, que mereceu o epíteto de “El Loco”. Este é o caminho de Aleph, a primeira letra hebraica que pode significar boi, símbolo da força vital, da energia criativa, da capacidade de modificar condições naturais. Aleph está ligado também ao ar, a vida, à respiração, ao vazio fértil onde se encontram masculino e feminino, ao potencial de todos. O Louco dentro de nós é toda a nossa possibilidade. Devemos tê-lo sempre diante de nós e extrair dele toda a sua sabedoria colorida e criativa.
Mariza Helena Ribeiro Facci Ruiz
 

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