Era uma vez, num reino distante, um rei que tinha um único filho. O rei estava ficando velho e temia pelo seu reino, pois seu filho ainda era jovem e inexperiente. Então, depois de muito pensar e aconselhar-se com os sábios anciãos do palácio, resolveu submetê-lo a uma série de experiências, pelas quais o príncipe mostraria seu valor e se já estaria preparado para dirigir o reino. Chamou-o à sua presença e lhe disse:
- Cristiano, meu filho, logo meu reino passará às tuas mãos. Até agora tens ficado protegido no palácio e pouca experiência tens dos homens e de seus negócios. Vais fazer uma viagem a países desconhecidos para procurar três tesouros que estão dentro de um baú. Mas antes de achares este baú, precisarás passar por três provas. A cada uma que venceres, estarás mais perto do tesouro. Se saíres vencedor, o meu reino te será entregue e poderei ficar descansado pois saberei que és merecedor de minha confiança.
E então, no dia seguinte o jovem príncipe partiu do palácio. Mas não ia sozinho. No seu dedo brilhava um anel com uma pedra vermelha que seu pai lhe havia dado na hora da partida, com a recomendação expressa de que não se separasse dele sob nenhuma hipótese.
E ele começou sua caminhada. Como era jovem e mimado, não estava acostumado à fadiga, nem aos exercícios físicos prolongados e forçados. Logo seu corpo doeu, o cansaço se fez presente. Mas como estava movido pelo entusiasmo e pelas novidades que ia observando, pouco se importou com o cansaço e continuou sua viagem, até que chegou a uma cidade chamada Cronópolis.
O que viu deixou-o entusiasmado! Longe dos olhos do pai (pelo menos assim pensava ele), divertia-se muito nas tabernas, alimentava-se mal e bebia demais. Fez amigos que o exploravam e o incentivavam a excessos cada vez maiores. Em pouco tempo havia gasto grande parte dos talentos, dinheiro do seu país, que havia trazido de casa, pois não julgava necessário repô-los com o trabalho e esforço próprio. Na sua ingenuidade achava que tudo no mundo estava posto para servi-lo, que suas provisões eram inesgotáveis e que, por ser filho do rei, nada lhe faltaria.
Mas o príncipe tinha uma boa índole e estes excessos começaram a incomodá-lo. Entretanto não sabia como enfrentar seus amigos. Então, uma noite em que estava finalmente sozinho no seu quarto, um tanto confuso com a situação que ele mesmo criara, sentou-se na cama e, com aflição, passou a esfregar vagarosamente as mãos. De repente, sentiu que o anel criava vida e lhe apertava o dedo. A cada lembrança das loucuras e desregramentos passados, o anel apertava-lhe o dedo. Aí, ele percebeu que o anel poderia ser um bom indicador do que estava errado. Começou a prestar atenção nas indicações do anel. Se comia em excesso, ou bebia demais, o anel apertava. E ele começou a reparar que também seu corpo estava sofrendo. Indigestões e ressacas, que até aquele momento considerara coisa sem importância, anunciavam-lhe que o corpo sofrera uma agressão. Se gastava demais e sem motivo, o anel apertava. E começou a ver que muitas das coisas que comprava eram supérfluas e que depois de terem satisfeito sua necessidade de novidades eram jogadas num canto, sem serventia. Se seus amigos invadiam-lhe a privacidade, tentando desviá-lo do caminho, o anel apertava. Percebeu então que não havia estabelecido limites razoáveis de proteção para si mesmo e que agora era-lhe difícil desvencilhar-se de pessoas que atrapalhavam sua missão. Então, percebeu ainda e agudamente sentiu que estava estagnado numa cidade só, parado, cristalizado e que havia se esquecido do motivo pelo qual havia saído do seu reino e de junto de seu pai.
Uma noite, aflito e envergonhado, decidiu que era hora de partir e seguir viagem. Deitado em seu leito, pensativo, contemplava o anel com amor e carinho. De repente, o anel começou a brilhar intensamente, com uma luz pura e branca que invadiu o seu quarto. E ele ouviu a voz de seu pai:
- Cristiano, meu filho, cumpriste a primeira parte de seu trabalho. Ultrapassaste a estação de Saturno e agora sabes lidar com a realidade física, estabelecer limites, cuidar de sua própria saúde. Principalmente aprendeste a lição: “Nada em excesso”.
No dia seguinte, o príncipe partiu...
No dia seguinte, o príncipe partiu. Tinha o coração aliviado e sentia-se mais confiante pois agora aprendera a cuidar de sua segurança física. Não cometeria mais os mesmos erros, assim pensava ele.
Seus passos o levaram então a Selene, uma outra cidade não muito distante da primeira. Já não era mais um jovem e inexperiente príncipe, pois já havia vencido muitas provas e transpusera muitos obstáculos. Sua fama de homem prático, justo e nobre já o havia precedido. Foi recebido com festas, carinho e amizade. E decidiu que permaneceria algum tempo em Selene.
Algum tempo depois, os habitantes vieram pedir-lhe que assumisse o governo da cidade. Tinha havido uma revolução e todos os dirigentes tinham sido depostos pela população. Pediam-lhe agora que os governasse com sabedoria. Condoído da situação da população, aceitou o encargo e foi nomeado rei de Selene. Sentia-se importante e útil a todos. Mas, a convivência prolongada fê-lo perceber certas esquisitices. Primeiro percebeu que havia uma clara divisão entre os habitantes. Quando num lado da cidade era dia, do outro era noite, alternando-se ininterruptamente. Esta diferença de luminosidade influía no comportamento dos habitantes. Enquanto um lado se divertia em festas, o outro mergulhava em profunda depressão. No dia seguinte, no lado que estava mais sombrio explodia uma guerra de conquista de novos territórios, o que intimidava o outro lado. Este lado então se encolhia, olhava espantado e se recolhia para o interior das casas. Punha-se então a rezar, a filosofar sobre o significado da vida, o propósito de tanta agressão. Então, devagarzinho, ia se soltando e voltando timidamente à vida. Enquanto isto, voltando da guerra, o outro lado percebia que necessitava agora de um período de paz em que pudesse contar os mortos, curar os feridos e reorganizar a parte da cidade que havia sido palco da guerra. Havia ruas a serem calçadas, casas a serem reerguidas e tudo precisava ser avaliado. E a cidade inteira parava! Ninguém trabalhava e o pouco que faziam para manter a sobrevivência era mal feito e descontente.
E ele, como rei, como ficava, no meio de duas partes tão antagônicas? Corria de um lado para outro, tentando compreender o que acontecia e principalmente tentando animar os que estavam tristes ou apaziguar os exaltados. Assim que se dirigia a um dos lados, transitava por ruas estreitas e escorregadias, cobertas por uma lama pegajosa e malcheirosa. Cansado e enlameado, chegava ao lugar onde havia marcado um encontro com seu povo e o que ouvia era uma interminável discussão sobre os pontos de vista, suposições, acusações, defesas de cada grupo. Todos falavam e nenhum tinha razão. No começo procurava argumentar com seu povo, mas todos tornavam-se surdos aos seus apelos e às suas súplicas. Ele, então, se calava e devagarzinho ia se identificando ora com um dos lados, ora com o outro. Custava-lhe um esforço tremendo sair dali e se recolher a seu quarto.
Uma noite em que se sentia frágil e derrotado, sentou-se em seu leito e, com a cabeça entre as mãos, deixou que lágrimas quentes lhe corressem pelo rosto. Era a primeira vez que chorava por sentir-se triste e sem saída! Seu coração estava apertado no peito e sentiu o peso da frustração.
Aí, de repente, ele compreendeu: os outros governantes haviam sido depostos porque não haviam sido capazes de ajudar o povo, não haviam compreendido as suas necessidades e haviam, isto sim, trabalhado muito mais em causa própria. Então, sentiu de novo a presença do anel em seu dedo. A pedra iluminou-se, encheu o quarto de luz e ele ouviu a voz de seu pai:
- Cristiano, meu filho, vá até a montanha mais próxima e procure um sábio que lá habita. Ele lhe mostrará o caminho.
Então, o príncipe dormiu.
No outro dia, cheio de esperança e com o coração batendo forte, caminhou em direção à montanha. Procurou, procurou... Finalmente, quando já estava desanimando, viu um velho chinês que executava movimentos rítmicos, leves e serenos. O príncipe parou e observou à distância. O velho parou, cruzou as mãos no abdome e olhando-o atentamente, convidou-o a se aproximar. Recebeu-o com uma alegria infantil e serena expectativa.
Estimulado pela recepção e por alguma coisa indefinível que percebeu na presença deste velho sábio, o príncipe abriu seu coração. Falou do seu desconforto em ver, dentro de seu país de adoção, uma luta interna, um conflito interminável. Contou-lhe também do desejo que sentia de ajudar seu povo e principalmente do amor que sentia por eles. O velho escutou atentamente e por fim lhe disse:
- Vá até a praça do centro da cidade, sente-se e apenas observe. No final de sua caminhada encontrará três tesouros.
E, levantando-se, despediu-se do príncipe, com palavras de estímulo e compreensão.
Um pouco decepcionado pela simplicidade do conselho e intrigado por ter ouvido outra vez a história dos três tesouros, o príncipe desceu a montanha. Ele imaginou uma coisa mais espetacular, mas como seu pai o havia aconselhado a procurar o velho, resolveu obedecer à sua orientação. Sentou-se num banco no centro da praça e observou seus súditos, sem procurar ajudá-los ou tomar partido. Apenas observou.
Então, começou a perceber umas situações muito interessantes. A primeira delas foi como eram fugazes, flutuantes, nada consistentes os estados de ânimo dos dois lados. Num dia estavam de um jeito, no outro dia estavam exatamente ao contrário. Então, ele imaginou que não podia haver realidade nisto, uma realidade concreta, objetiva. Tudo era e ao mesmo tempo não era. Todos tinham razão, mas ao mesmo tempo não tinham, se isso fosse olhado sob outra perspectiva... Ele ficou curioso, e sentiu agudamente a impossibilidade de tomar como verdade definitiva sentimentos tão escorregadios e mutantes. Ao fazer sua descoberta, desatou a rir do drama que havia feito ao considerar como real o que hoje existe e amanhã já mudou.
Mas uma inquietação assaltou-o. Mesmo tendo compreendido a natureza das emoções que seu povo sentia, isto não lhes diminuía o sofrimento. Então, percebeu que havia um nexo entre cada emoção e cada sentimento diversos, polares, que seu povo sentia. Se um lado agredia, o outro encolhia, se um ficava excitado e eufórico, o outro estava deprimido. Tentou, então, entender isso. E viu que cada um expressava uma necessidade profunda que precisava ser atendida, não só uma, mas ambas. Aí, entendeu outra coisa: que a expressão dessas necessidades acontecia por um aumento de pressão interna, assim como uma panela de pressão se põe a chiar e solta vapor. E que por trás dessa pressão havia sempre sentimentos de medo, de insegurança, de rejeição...
E finalmente percebeu mais profundamente, quase como uma revelação, que, por trás de tudo isso havia muita infantilidade, a inadequação das crianças que não sabem muito bem lidar com o mundo e com as pessoas à sua volta, até porque não os compreende. Então, o príncipe se condoeu dos seus súditos. Sentiu-lhes a dor, o conflito, a perplexidade e a confusão de sentimentos. Já fazia algum tempo que estava ali observando. E, a cada percepção, seu coração enchia-se de amor e compaixão.
Devagarzinho, aos poucos, algumas pessoas de cada lado, aproximavam-se dele, ali no centro da praça. Ele ouvia, ouvia e sua atitude serena os convidava a serenarem com ele.
No entanto, muitas vezes ele voltou à velha tendência de tomar partido. As razões de cada lado pareciam-lhe tão lógicas, tão razoáveis que ele sucumbia e eventualmente tomava partido de um dos lados. Aí, o anel apertava, dando-lhe o sinal de que havia errado. Alerta, voltava para a imparcialidade e observava apenas. Seus súditos foram se acalmando e o procuravam quando se sentiam pressionados. Nele encontravam um ponto de equilíbrio.
Uma noite, já recolhido a seu quarto, enquanto meditava em silêncio, uma grande paz invadiu seu coração. Pela terceira vez seu quarto encheu-se de uma luz que irradiava de seu anel. Então, ele ouviu a voz de seu pai, como de costume:
- Cristiano, meu filho, venceste a segunda prova. Ultrapassastes os pares de opostos, a estação da Lua. Podes agora seguir teu caminho.
No dia seguinte, após uma noite bem dormida...
No dia seguinte, após uma noite bem dormida, o príncipe se despediu dos habitantes da cidade. Agora, eles mesmos sabiam se dirigir ao centro da praça e entrar num acordo. Agradecidos e pesarosos, despediram-se do príncipe, mas desejaram-lhe boa viagem e que conseguisse seu objetivo.
O príncipe andou, andou... num entardecer, chegou ao pé de uma montanha. O caminho por onde passara subia, serpenteando montanha acima, como que convidando-o a seguir adiante. Num dado momento, ele parou. Estava fatigado da caminhada e como a noite se aproximava, olhou ao redor e avistou um antigo convento que acolhia viajantes. Ali ficou por uns tempos.
Os monges deste convento eram instruídos e, depois de um dia dividido entre preces e trabalhos, reuniam-se na biblioteca para ler e discutir os filósofos, poetas e escritores antigos e modernos. O príncipe nunca havia se dedicado muito aos estudos, pois aprendera no palácio as artes da guerra, das finanças e da diplomacia. Tudo muito prático e utilitário, mas distante de seus interesses. Ele preferia caçar com os falcões, nadar no bosque, galopar um cavalo ligeiro. Às vezes também se interessava por uma mocinha bonita, encantava-se por um momento e logo se desinteressava, mais preocupado com seus companheiros de lutas ou em reunir-se com vinte e um outros amigos para um jogo de bola peculiar ao seu país.
Ao fim do dia todos se encaminhavam à biblioteca do convento. Ele, como era um hóspede e não estava obrigado aos trabalhos e preces, chegava primeiro. Sentava-se numa cadeira de espaldar alto que lhe fora previamente destinada e seus olhos corriam pelo recinto. Era um cômodo muito grande, mais comprido do que largo, de uma austeridade sem par. Nada ali era supérfluo, nada destoava do ambiente. No centro havia uma longa mesa com cadeiras, algumas carteiras altas espalhadas pelos cantos onde os monges faziam suas traduções e iluminuras e muitos, muitos livros nas estantes espalhadas pelas paredes. O único enfeite era um quadro que ficava bem em frente à sua cadeira. Representava um centauro no ato de lançar uma flecha. Nada mais. Os monges chegavam, sentavam-se, faziam uma curta prece de entrega e agradecimento a Deus e iniciavam os estudos. O príncipe, inculto, mas inteligente, ouvia com prazer. Algumas horas depois, os monges despediam-se do príncipe e se recolhiam às suas celas.
Um dia o príncipe achou que já era hora de partir. Havia aprendido muito, mas tinha um trabalho a fazer. Então, despediu-se dos monges e continuou sua viagem.
Ao sair do convento, deparou-se outra vez com a montanha e com a estrada serpenteante que a ladeava. O príncipe pensou:
- Todos os caminhos levam aos homens. Vou iniciar a subida.
Enquanto subia, às vezes encontrava-se com alguém. Cumprimentava educadamente, acenando com a mão e espantava-se ao ver a reação do outro viajante. Assim que percebiam o anel no seu dedo, davam meia volta e saíam correndo, alegres e excitados, como se fossem portadores de uma boa notícia. Mas o príncipe continuava a subir.
De repente, numa volta do caminho, deparou com um vale verdejante, com plantações e rebanhos. Havia chegado a uma cidade. Reparou que ela estava em festa e ficou contente por poder aproveitar dos festejos. Fazia tempo que não se divertia e um pouco de música, dança e comidas gostosas lhe fariam muito bem. Por um momento poderia esquecer sua missão e viver como a maioria dos homens, como o mais comum dos mortais. Seu coração se alegrou.
Foi se aproximando da porta de entrada da cidade, ouvindo o som dos instrumentos e vendo a intensa movimentação de seus habitantes. Aí, prestou atenção a uma faixa carregada por lindas criancinhas, onde estava escrito:
Príncipe Cristiano! Benvindo a Heliópolis.
Ele se deu conta de que a festa era para um príncipe e o curioso era que este príncipe tinha o seu nome. Bons augúrios – pensou. E foi se aproximando para se misturar à multidão. De repente estacou. Todos estavam com os olhos fixos nele e um homem que parecia ser o chefe, ou o prefeito, se aproxima dele com uma enorme chave na mão. Espantado, vê o prefeito curvar-se diante dele e lhe dizer:
- Príncipe Cristiano, aceitai a chave de Heliópolis, nossa cidade. Chegou até nós a fama de vossos feitos em Cronópolis e Selene e vos reconhecemos pelo anel que trazeis no dedo. Oferecemos nossa dedicação e pedimos a vós que venhais até o palácio para podermos conversar.
Um pouco a contragosto o príncipe aceitou o convite. Iria atrasar sua caminhada, mas pensou que quando surge o inevitável, é melhor não se aborrecer. Iria ouvi-los e depois continuaria sua jornada. Acompanhou, então, o prefeito, com a multidão seguindo atrás, aplaudindo e gritando.
Chegando ao palácio, estava reunido todo o ministério na sala de audiência. Um por um, todos se aproximaram, se identificaram e se curvaram perante ele. Pediram-lhe que se sentasse numa cadeira de espaldar alto e começaram a explicar-lhe a situação da cidade. O rei anterior havia morrido sem deixar herdeiros, o que de uma certa forma havia sido uma bênção. Por anos e anos a cidade estivera nas mãos de um rei autoritário, déspota e inseguro. Deixava-se levar pelas adulações do bufão da corte, homenzinho mau, invejoso e vingativo. Haviam sido anos e anos de terror e agora queriam mudar. O bufão havia sido banido e sentiam-se livres para tomar uma outra atitude. Como ficaram sabendo pelos viajantes que o encontraram pelo caminho que um príncipe sábio e compassivo estava se aproximando, esperavam que ele pudesse aceitar continuar sentado no trono.
- Continuar sentado?! – espantou-se o príncipe. Ele se volta para trás e percebe que a cadeira em que se sentara era um trono, muito semelhante ao do seu pai. E agora? O que fazer?...
Muitos pensamentos passaram por sua cabeça. O que havia aprendido em Cronópolis, reconhecer seus limites, preservar sua integridade física e emocional, dizia-lhe que não aceitasse, que fugisse dali o mais rápido possível. Estava outra vez deixando-se invadir. Mas o que havia aprendido em Selene, dizia-lhe que ficasse, porque talvez pudesse ajudar esse povo, os heliopolenses. Depois de uns minutos de hesitação, disse:
- Se for para o bem de todos e felicidade geral da nação, digam ao povo que fico.
Houve festa por três dias! Por três dias, nas ruas o povo gritava uma antiga fórmula mágica:
- Habemus chefe! Habemus chefe!
A primeira providência tomada pelo príncipe foi chamar seu ministério. Havia muitos ministros: o das Relações Exteriores, o da Religião Oficial, o dos Usos e Costumes, o da Guerra e Extermínios em Massa, o das Leis Absurdas, o das Corridas de Cavalo, o das Intrigas Palacianas, o da Loteria Institucional, o dos Espiões Secretos, e outros tantos de menor importância como o das Finanças, o da Saúde e da Habitação. Havia um, muito desprestigiado no palácio, o ministro da Educação. Cada vez que esse pobre abria a boca para dar uma opinião, um outro ministro, poderoso e respeitado, o ministro da M.I.D.I.A. dizia-lhe que estes assuntos eram da sua competência e que ele cuidaria de tudo. Não se preocupasse o ministro da Educação que já estava tudo acertado. Como os outros ministros aplaudissem, entusiastas e aparentando modernidade, o coitado se calava e se recolhia à sua insignificância. Havia também no palácio sábios e filósofos, mas estes, em geral, tinham suas idiossincrasias e todos tinham o péssimo hábito de achar que eram donos da Única Verdade. A maior parte do tempo passavam discutindo e brigando entre si e, se vinham até o príncipe, era para reclamar uns dos outros. O príncipe ouvia-os educadamente, mas não os levava muito a sério!
Os ministros quiseram colocar outro bufão na corte, este da confiança deles, mas o príncipe recusou. Não teria tempo para fanfarronadas e preferia não se arriscar a ver-se às voltas com outro bufão ressentido e raivoso. Em vez de divertimentos alucinados e coletivos, preferia ouvir a orquestra do palácio, ler seus livros ou assistir a uma boa peça de teatro. Seus tempos de inocência haviam passado.
Assim ele governava a cidade. Todo fim de tarde reunia-se com seus ministros, um de cada vez. E vinha o ministro da Fazenda querendo fazer cortes no orçamento da Saúde. Em seguida, chegava o ministro das Relações Exteriores relatando disputas internas e externas. Depois, o da Guerra, a quem tentava controlar os ímpetos, o dos Esportes e Lazer, querendo construir estádios para o tal jogo de bola e o das Leis Absurdas, querendo instituir o toque de recolher às vinte horas. Era tudo tão confuso, tão sem nexo que o príncipe atrapalhou-se. Era difícil contentar as expectativas tão diversas de seus ministros. O povo, este era mais fácil de se contentar. Por mais que ele se esforçasse para mudar esta situação, pão, cerveja e circo satisfaziam ao povo.
Então, o príncipe parou e observou. Viu, atrás de cada ministro suas motivações egoístas. Não pensavam no bem comum, na melhoria das condições do povo e da cidade, mas só em si mesmos. E ele percebeu que nada poderia fazer se não tomasse decisões por si mesmo. À noite, em seu quarto, aflito e frustrado, ele olhou para o anel. Lá estava ele em seu dedo, brilhando como sempre. Esfregou-o. Nada... Dirigiu uma prece ao pai. Nada... Desesperou-se. Nada... Ele estava só!
Então, sentou-se no leito e procurou acalmar-se. Respirou fundo, fechou os olhos e esvaziou a mente. Ficou assim por longas horas, até a madrugada, calmo, sereno. Depois caiu num sono reconfortante e tranqüilo.
No dia seguinte chamou seus ministros:
- Sei que os senhores têm a melhor das intenções quando vêm me propor planos para governar a cidade. Estão fazendo o papel de ministros que de fato são! Só que de agora em diante estabeleceremos prioridades, definiremos metas, sempre tendo o bem estar em geral, nosso e do povo, como objetivo principal. Trabalharemos juntos e eu, como rei e no exercício de minhas responsabilidades, darei a última palavra. Procurarei manter as metas estabelecidas e os senhores, como ministros, se encarregarão de executá-las. Para isso, contarão com os recursos do tesouro imperial e eu os estarei apoiando e incentivando. Continuaremos amanhã com nossos trabalhos e cada ministro deverá trazer uma lista com suas reivindicações. Senhores, está encerrada a sessão.
Perplexos, os ministros saíram discutindo animadamente. O príncipe esparramou-se no trono, aliviado e satisfeito. Olhou então o anel, certo de que seu pai se manifestaria e iria cumprimentá-lo pela vitória. Nada...
Então, ele compreendeu. Não poderia nunca mais contar com o anel. Agora, ele estava só e era responsável total por seus atos. Não haveria nada mais no mundo externo para auxiliá-lo e só poderia contar com seu próprio poder de decisão e escolha. Não havia por que esperar elogios por ter cumprido seu dever. Seu mérito residia em vencer sua própria fraqueza e indecisão, ao ter feito isto, havia vencido seus ministros. Havia se tornado um servidor de seu povo e para ele trabalharia incansavelmente. E pela primeira vez sentiu-se vivo, pleno e percebeu que não era mais uma folha na tempestade. E também pela primeira vez percebeu a si próprio, em toda a sua singularidade.
Não foram fáceis seus anos de reinado. Às vezes um ministro se sublevava e o príncipe tinha que exercer todo o poder de sua vontade, toda sua autoridade para reconduzi-lo ao lugar. Muitos deles foram aos poucos sendo substituídos por outros mais adequados e mais sábios. Muitos ministérios foram fechados e não fizeram a menor falta. Outros foram fortalecidos e prestaram inestimáveis serviços à população. E o príncipe conduzia seu reino com a firmeza de quem não precisa provar nada a ninguém.
Quando seu reino estava próspero e em paz, um dia chega um pombo-correio com uma mensagem aterradora: o rei do reino vizinho pedia-lhe socorro, pois sua única filha havia sido raptada por um monstro de muitas cabeças. Ele exigia que jovens, rapazes e moças, fossem mandados para sua caverna, onde seriam devorados. Havia um prazo para isso e o prazo estava se esgotando. Entre sua filha e os jovens do país, o rei se desesperava e pedia-lhe socorro.
O príncipe decidiu-se. Chamou os ministros e pediu-lhes que convocassem um exército de voluntários dispostos a tudo e como não sabia se iria voltar vivo de tal empreitada, nomeou como seu sucessor o ministro mais sábio, um jovem que havia vivido por muitos anos numa cidade chamada Psicho´s City, fundada por uma maga de grande prestígio e sabedoria. Nesta cidade, ele havia aprendido a respeitar o ser humano em sua totalidade e havia desenvolvido qualidades transpessoais. O reino estaria em boas mãos. Mas o que mais tocava o coração do príncipe era o filhinho deste jovem, esperta e linda criança de três anos, e sua linda e doce esposa. O reino teria continuadores sensíveis e harmoniosos. Ele poderia partir sossegado.
Então, juntando seu exército, o príncipe partiu montanha acima. Após uma caminhada de três dias, chegaram ao alto. O príncipe ouviu os rugidos da fera, antes mesmo de avistá-la. Foi se aproximando e percebeu uma caverna. Lá dentro estavam a princesa e a fera que a guardava.
O príncipe olhou, olhou e não vendo outra alternativa, mandou que o exército atacasse, com ele na frente, empunhando uma reluzente espada. Um rugido da fera, um jato de fogo de suas narinas foram o suficiente para que o exército corresse em debandada, uns atropelando os outros. Vexame geral!... O príncipe correu atrás do seu exército, tentando pará-los, mas o que viu desanimou-o. Havia barbas chamuscadas, pés torcidos, braços quebrados... Nada muito sério, mas o suficiente para desmoralizar qualquer exército que se preze.
Mas, o que mais preocupava o príncipe era o ar de espanto e horror de seus homens. Eles lhe diziam, correndo a mais não poder:
- Voltai, senhor! Nós vimos o bicho! É um monstro horrível de nove cabeças, todas lançando fogo. Deixai pra lá essa princesa e voltai conosco!
O príncipe gelou: a Hidra de Lerna!
- Outra vez? – perguntou-se.
Ele se lembrou das horas de estudo no convento. Havia lido os contos dos trabalhos de Hércules e no oitavo trabalho ele vence a Hidra, monstro de nove cabeças que renascem ao serem cortadas.. Lembrou-se de que três dessas cabeças simbolizavam os apetites associados ao sexo, conforto e dinheiro. A trinca seguinte dizia respeito às paixões do medo, ódio e desejo de poder. As últimas três cabeças representavam os vícios da mente não iluminada: orgulho, separatividade e crueldade. Ele temeu pelos jovens que seriam enviados a ela!
Tentando buscar uma orientação, trouxe à sua memória a história do herói grego. Lembrou-se então que Hércules venceu a Hidra tirando-a da caverna, trazendo-a para a luz do sol e erguendo-a nos braços. Sem o alimento da energia da terra, a Hidra tornou-se fraca e ele pode finalmente cortar-lhe as cabeças, cauterizando as feridas para que outras cabeças não nascessem e enterrar a última, que era imortal.
Tudo bem para o herói grego! Hércules era um semideus, tinha uma força descomunal e contava com a proteção dos deuses. E ele, Cristiano? Era humano, não podia levantar aquele peso todo e o pior: até seu anel o havia abandonado!
Então, ele se lembrou do velho chinês: sente-se e observe. E ele observou, observou. Primeiro, viu que o monstro era curioso e de vez em quando punha a cabeça para fora da caverna, dava uns rugidos, olhando para ele. Em seguida, notou que o monstro reagia à sua presença. Se o príncipe lhe desse atenção, ou se mostrasse medo, o monstro aumentava de tamanho, enchendo a caverna. Se ele pensava em outras coisas, o monstro dormia. Com um olho aberto, mas dormia. Se ele serenava, o monstro diminuía. Diversas vezes o príncipe fez esta experiência e acabou percebendo que se mostrasse sentimentos de medo, aflição, frustração, expectativas, desejos, raiva e impotência, o monstro acordava e rugia bravo. Mas se substituísse tudo isso por sentimentos mais positivos de amor e aceitação, o monstro diminuía.
- Eureca – disse o príncipe. Sou eu quem o alimenta, não mais a terra. Como Hércules, vou cortar-lhe a energia! Para monstro antigo, métodos modernos!
E sentou-se embaixo de uma árvore, sem medo nenhum. De uma certa forma havia compreendido que ele e o monstro eram um só. Fechou os olhos e esperou. O monstro cresceu, diminuiu, rugiu, lançou fogo, latiu, atacou e ele não se moveu. Encostou a ponta dos dedos na terra e esperou por um longo tempo. De repente, tudo se acalmou. Fez-se um silêncio, só quebrado pelo barulhinho das folhas secas sendo pisadas de leve, talvez por um pequeno animal. Ele abriu os olhos e viu uma lagartixa subindo pela árvore. É verdade que ela tinha nove cabeças, mas devia ser uma nova espécie ainda não catalogada pelos naturalistas.
Percebendo que tudo se acalmara, o príncipe, cauteloso, entra na caverna. A luz do archote que carregava ilumina um canto e ele vê a mais linda princesa que já vira em toda sua vida. Ela está sentada na tampa de um baú. Seu coração se alegra e ele encaminha-se em sua direção. Dá-lhe a mão para que desça e lhe pergunta:
- Princesa, qual o seu nome?
- Hani Ma – diz-lhe a jovem.
Não há mais o que falar. O príncipe se pergunta o que estaria fazendo ali um baú e, curioso, abre-o. Seu coração dispara no peito: os três tesouros que viera procurar. Havia cumprido totalmente sua missão. Agora, de posse dos tesouros e na companhia da princesa, poderia voltar para seu reino. Sai da caverna, tira o anel do dedo e o entrega a seu fiel escudeiro que o seguira sem ser notado. Não precisa mais do anel, agora sabe!
Então, o príncipe Cristiano volta as costas para o pico ensolarado e inicia a jornada de volta à Casa do Pai.
* * *
Você que acompanhou esta peregrinação do príncipe Cristiano em busca dos três tesouros, também pode tomar posse deles. Pegue um baú imaginário que está à sua frente, abra-o, leia os pergaminhos que se encontram dentro e aproveite toda esta riqueza que agora lhe é oferecida!
O primeiro pergaminho diz: Meu filho, quando conquistaste o princípio de Saturno, aprendeste a Moderação. Usa-a para o benefício teu e de teu povo!
O segundo diz: Meu filho, quando conquistaste o princípio da Lua, aprendeste a Compaixão! Usa-a para benefício teu e de teu povo!
O terceiro diz: Meu filho, quando conquistaste o princípio do Sol, aprendeste a Humildade. Usa-a para benefício teu e de teu povo
Estes são os três tesouros!
Astrologia Psicológica






