No artigo - O mapa astrológico e a constituição tríplice da personalidade - falei sobre a constituição tríplice da personalidade humana, representada por Saturno (o nível físico), pela Lua (o nível emocional) e pelo Sol (o nível mental) e como, em nós, um desses três níveis sempre é mais atuante e deve ser utilizado para desenvolver os outros dois para que nossa personalidade possa ser o mais possível integrada. Gostaria agora de que nos ocupássemos de cada um desses níveis de nossa personalidade, a começar pelo Sol.
O Sol representa o princípio de identidade da pessoa consciente de si mesma. É a função psíquica que reflete sobre si mesma e que pode dizer “eu sou”. É o centro da individualidade interna e da autoconsciência. Manifesta-se como o poder da Vontade, como expressão da força irradiante (carisma) e da energia realizadora. O glifo do Sol, um círculo com um ponto no centro, simboliza a imagem da plenitude, do infinito, da ausência de limites (o círculo). O ponto no meio do círculo representa o centro ou o foco da vida, o ponto da individualidade, o self individual e único, o veículo pelo qual o Espírito ou o Eu transpessoal pode se expressar. As metas solares são interiores, dizem respeito à auto-realização e à experiência da vida como algo especial e cheio de significado. A passagem da inconsciência para a consciência implica na realização do princípio do Sol. Ao recusar atender a esse chamado, o indivíduo permanece uma criança, psicologicamente infantil. O Sol, como expressão da consciência mental, indica o modo, a maneira pessoal e o desenvolvimento do pensamento próprio, individual.
No entanto, nos ensinaram, e nós desde criancinhas aprendemos muito bem, que é feio, não é educado, é mesmo muito “mau” nos valorizarmos em excesso, que o orgulho, a vaidade, a individualidade estão na origem de todos os males, particulares e mundiais. De fato, é aí que surge a sombra do Sol, que se manifesta como um falso senso de “eu” que necessita de constante aprovação dos outros ou como individualismo, orgulho, vanglória, separatividade, egocentrismo, ambição, impotência, falta de direção, debilidade... É muita sombra para um planeta só...
Em uma conferência sobre a ética taoísta, diz Mestre Liu Pai Lin, citando as palavras de Lao Tzé no poema 67: “Eu tenho três tesouros: compaixão, moderação e humildade”
Realmente, que contraste! A qualidade transpessoal que surge com a plena conquista do princípio do Sol é a HUMILDADE.
Vejamos o que diz sobre isso Rollo May, psicanalista americano, em seu livro “O homem em busca de si mesmo”, no qual analisa a insegurança e ansiedade do mundo moderno:
“Não há dúvida de que não se deve pensar demasiado bem de si mesmo. A humildade corajosa é característica da pessoa realista e amadurecida. Mas ter-se em exagerado conceito, no sentido de vaidade e autopromoção, não resulta de mais autoconsciência, ou de sentimentos de autovalorização. Na verdade é exatamente o oposto. Autopromoção e vaidade são, em geral, sinais exteriores de insegurança e vazio interior. Uma exibição de orgulho é um dos mais comuns disfarces da ansiedade. (...) Quem se sente fraco, torna-se fanfarrão, quem se sabe inferior, torna-se gabola; flexionar músculos, falar demais, ser obstinado e impudente são sintomas de ansiedade oculta, numa pessoa ou num grupo”.
Uma atitude contrária, que da mesma maneira não permite a plena realização do princípio do Sol, é a desvalorização de si mesmo. A pessoa que perdeu grande parte, mas não de todo, o sentimento e a consciência do próprio valor, tem grande necessidade de se condenar, de se culpar por qualquer ato que considerou como “mau”. Esta atitude revela, não a verdadeira humildade, mas um profundo orgulho, de quem se considera suficientemente poderoso a ponto de ser responsável pela felicidade ou infelicidade dos outros. Outra atitude muito comum, representativa da ausência de auto-estima e de autoconsciência, é a aceitação constante de humilhações e rejeição, a resignação em face do autoritarismo, o encolher-se em vez de reagir. Por trás da não-reação esconde-se o medo de reconhecer que não somos amados. Como esta idéia nos aterroriza! Não podemos suportar a dor do isolamento e o vazio de sabermos que não nos amam como gostaríamos ou como mereceríamos, então nos tornamos passivos diante da agressividade alheia, alienados de nossos próprios sentimentos.
Trabalhar com a sombra, aprender a lidar com ela, exige a humildade de confrontar-se honesta e francamente consigo mesmo e enfrentar a própria situação com realismo e de maneira construtiva. Assim chega-se à verdadeira humildade que pressupõe uma consciência clara do próprio valor, da dignidade intrínseca do ser humano. Quem tem consciência de suas qualidades reais, de suas possibilidades, da força de seu caráter, do seu lugar no mundo, do seu valor como ser humano conquistou o princípio do Sol e já não precisa provar nada a ninguém, nem entrar em disputas que só conduzem à desarmonia e à morte. Pelo contrário, segue humilde e forte o seu caminho, iluminando os outros com o seu brilho e levando-os a dar alguns passos a mais na direção do que se espera dos homens: que eles se tornem cada vez mais aquilo que são: humanos.
Astrologia Psicológica






