A conquista da Lua – o segundo tesouro
M. Regina Martins de Assis
No artigo - A conquista do sol - referi-me a uma conferência sobre a ética taoísta na qual Mestre Liu Pai Lin cita o poema 67 de Lao Tse que diz: “Eu tenho três tesouros: compaixão, moderação e humildade”. Neste artigo falei sobre a conquista do que em Astrologia é representado pelo Sol, isto é, a consciência do próprio eu, do valor pessoal, da auto-estima e da própria dignidade. De fato, ter consciência da própria força e do poder pessoal é uma conquista e tanto e exige trabalho árduo até que desenvolvamos a confiança em nós mesmos. Quando esta confiança verdadeiramente se realiza e nada mais temos a provar a ninguém, manifesta-se em nós o primeiro tesouro: a Humildade.
Para muitos esta consciência solar poderia bastar. Estas são qualidades valorizadas ao extremo pela nossa sociedade e nos servem admiravelmente no mundo dos negócios, da competição, do sucesso pessoal. No entanto, logo percebemos que algo não vai bem. Nossa auto-suficiência já não nos basta, estamos cheios de mágoas, ressentimentos, cansaço e atitudes de defesa. Desenvolvemos uma vontade eficiente para derrubar barreiras, mas nos sentimos vazios. Somos como o homem de lata de “O Mágico de Oz”, ao qual faltava um coração!
De fato, não nos sentimos completos e felizes se estivermos sozinhos, isolados numa concha de autodefesa. Há em todos nós uma necessidade de ultrapassarmos as limitações da personalidade pela união com alguém ou com algo maior e mais elevado do que nós mesmos. Não fomos criados para sermos sozinhos e auto-suficientes. Faz-se necessário, então, a conquista do princípio da Lua, que em Astrologia representa nossa capacidade de fazer contato, de nos relacionarmos com todas as coisas criadas: homens, animais, plantas, seres inanimados e mesmo com situações. Ela representa a necessidade que temos de ser amados, aceitos e reconhecidos, e conforme somos ou não atendidos, a nossa capacidade de sentir simpatia ou antipatia. É por meio dela que conhecemos o mundo, damos-lhe um sentido de valor emocional e a ele reagimos. Necessitamos do estímulo do mundo externo tanto para nos conhecer a nós mesmos como para desenvolvermos um senso de valor próprio. E esta ligação com o mundo externo é feita pela Lua e seus planetas auxiliares, Mercúrio e Júpiter.
Satisfazendo o princípio da Lua adquirimos um coração! Com ela aprendemos a nos relacionar e caminhamos na direção do Amor. O primeiro que havemos de desenvolver é o amor a nós mesmos. Pode parecer um contra-senso, pois o amor a nós mesmos é geralmente visto como egoísmo. Será, evidentemente, se estivermos voltados unicamente à satisfação de nossos desejos de poder e de prazer, sem levarmos em consideração o outro que de alguma maneira possa estar ligados a nós. O que devemos amar em nós mesmos são as nossas potencialidades, nosso valor como pessoa humana, nossa criatividade e nosso direito de ser quem somos. O amor e o respeito por nós mesmos nos dará a alegria e nos fará bem melhores do que somos.
Mas isto também não basta! Naturalmente, então, nos abriremos aos outros, que poderão ser nossos filhos, nossos pais, nossos parceiros. Mas aqui há uma questão muito delicada a ser considerada: não somos tão "bonzinhos" como imaginamos e nem começamos imediatamente a amar as pessoas com quem nos relacionamos tão estreitamente, assim como por um passe de mágica. Na verdade, estes relacionamentos estão sempre carregados de raiva, mágoas e ressentimentos por antigas feridas, abertas todas as vezes em que nos machucaram, desafiaram, não compreenderam, desprezaram, rejeitaram, ignoraram ou tentaram nos subjugar. Isto acontece em todos as relações porque não há ninguém que possa satisfazer completamente nossas expectativas, nossa fome de amor e compreensão incondicionais. E por mais que sejamos bem sucedidos profissionalmente ou mesmo se tivermos alguém com quem compartilhamos a vida, a sensação é de que não nos sentimos inteiramente livres e despreocupados. Sentimentos de menos-valia, de raiva e de termos sofrido tremendas injustiças nos assaltam nos momentos em que estamos sozinhos, entregues a nós mesmos. Não resolveremos estas sensações negativas que nos perturbam se não descobrirmos o segundo tesouro de nossa Alma: a Compaixão.
A compaixão é uma qualidade de Netuno, planeta transpessoal que se manifesta depois de termos conquistado o princípio da Lua. Depois de termos aprendido o amor humano, que por sua própria natureza exige troca e satisfação pessoal, poderemos transcendê-lo além de nossa personalidade e teremos aprendido então, o valor do perdão. Como no que se refere ao amor, primeiro perdão a nós mesmos, à quantidade de bobagens e mesquinharias que reconhecemos ter feito durante a vida e depois aos outros que nos machucaram tão profundamente. E só conseguiremos dar e receber o perdão se nos desprendermos do passado, e principalmente da memória dele, que nos remete insistentemente à dor e ao sofrimento. Olhar para trás, ficar preso ao passado é agir como a mulher de Lot e se transformar numa estátua de sal. Cristalizada, imóvel e estéril. A compaixão exige que compreendamos que os outros também têm suas dificuldades e que no momento em que nos feriram, fizeram o que sabiam e podiam fazer. Nada mais! Como nós, estão no mundo para aprender e não nos cabe julgar e condenar. Então, nosso coração se abre e as dores passadas se esvaem. Os grilhões que nos prendiam se quebram, se dissolvem no ar e são substituídos por uma sensação de liberdade, de alegria e de confiança na Vida. Podemos agora usufruir do segundo tesouro, sem nenhum medo de que ele acabe! Pelo contrário, este tesouro tem a estranha propriedade de aumentar na mesma medida em que fazemos uso dele!
Astrologia Psicológica