A casa 10 e o simbolismo da cruz
M. Regina Martins de Assis
Nos artigos anteriores vimos fazendo um passeio pelas casas astrológicas e comentamos a passagem da nossa idade por cada uma destas casas. Agora chegou a vez da casa 10, símbolo da maturidade finalmente conquistada, da auto-realização e da individuação.
Antes de falarmos sobre as características desta casa e sobre as experiências práticas pelas quais passamos, quando aos 54 anos atravessamos este período, gostaria de fazer com vocês uma reflexão sobre a beleza dos ensinamentos espirituais que chegam a nós das mais diversas fontes, umas completando as outras, tornando claro algum ensinamento de uma delas que ficou por um tempo obscuro e sem sentido. Uma das características destes ensinamentos é que nada é revelado de forma muito mastigada, como nos livros escolares, mas exigem esforço, busca, questionamentos, reflexões e principalmente vivência autêntica para que se tornem compreensíveis. Vejamos então um pouco de técnica astrológica, sem querer fatigar o leitor com dados incompreensíveis.
A casa 10 pertence a um dos eixos principais do mapa, o eixo vertical. Explicando: se dividirmos a circunferência que simboliza o mapa com uma linha na horizontal – que liga a superfície da terra ao horizonte longínquo, e outra na vertical – que toca o alto do céu e atravessa todo o planeta Terra, formamos uma cruz, a cruz cardeal. Esta cruz sempre foi considerada de suma importância para a Astrologia, mas por mais que eu estudasse as suas características que levam à busca da expansão, de novas atividades e do impulso à ação, não conseguia perceber porque se dava maior importância a ela do que às outras duas cruzes, a fixa (busca da segurança) e a mutável (do pensamento, da reflexão, do amor). Não eram elas iguais em significados em nossas vidas? Por que a cruz cardeal é considerada mais importante?
Algumas respostas encontradas nos livros suscitavam novas perguntas. Seria porque a cruz cardeal nos leva à ação, a empreendimentos no mundo e nosso mundo valoriza os vencedores? Parecia pouco provável, já que a astrologia é profundamente espiritual. Ou talvez porque ela assinala o início das quatro estações do ano? Isto seria muito circunstancial. A compreensão ficou em suspenso.
Anos mais tarde me foi contada a história do Mestre chinês de Tai Chi, Liu Pai Lin, que até há bem pouco tempo ensinava sua ciência no Brasil. Ele foi um general do exército chinês e ao ter sido ferido muito gravemente em batalha, corria o risco de ter suas duas pernas amputadas. Mas como desde menino praticasse Tai Chi com seu tio, sabia da existência de grandes Mestres taoístas que poderiam ajudá-lo a se curar. Então, nesta busca se fez conduzir pelos soldados para uma região de montanha e foi encontrado por um Mestre já muito evoluído. Com este Mestre, ele aprendeu muitas coisas, praticou bastante. Quando já estava curado, seu Mestre lhe disse que iria partir. Então, o general, futuro Mestre também, pediu a ele que, antes de partir, resumisse a essência de seus ensinamentos. O Mestre disse: "A ligação na horizontal e na vertical." Estava aí a resposta às minhas dúvidas.
Quem pratica Tai Chi sabe que nós somos filhos tanto do Céu como da Terra. Nossos pés estão firmemente ligados a terra, nossa cabeça liga-se ao céu e dele recebe a energia necessária ao nosso desenvolvimento como seres humanos. O que se procura é o desenvolvimento de nosso Espírito, filho do céu, ao mesmo tempo que a harmonização de nosso corpo, filho da terra, com as energias que vêm do céu (eixo vertical) e com as energias dos cinco elementos da terra. (eixo horizontal). O serenar das emoções, o cultivo do coração, no centro, nos põem numa relação equilibrada e amorosa com os dois eixos e conseqüentemente com a natureza, conosco mesmos e com os outros. Esta é a essência do ensinamento de todas as religiões, o que é exatamente igual a “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
Da Astrologia podemos extrair o mesmo ensinamento: o braço horizontal da cruz cardeal nos remete aos signos de Áries (o desenvolvimento do eu) e Libra (o encontro com o outro, com a natureza, com o que não sou eu). O braço vertical nos remete aos signos de Câncer (as raízes, a família, o coletivo) e Capricórnio (o ponto mais alto do mapa, evocando a lenta subida do homem até os níveis mais elevados de espiritualidade).
Aos 54 anos alcançamos esta casa de Capricórnio, casa de terra e a última em que estaremos ocupados com o êxito mundano. No próximo número vamos falar sobre ela.
Astrologia Psicológica